Sábado Santo – 11 de abril de 2020

S. Mateus 27,62 ao fim

Neste texto para Sábado Santo, Mateus transmite-nos umas palavras de preocupação e suspeita por parte dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas reunidos no palácio do Procurador Romano para continuar a conspirar. No processo, julgamento e condenação de Jesus, assistimos a uma série de grandes alterações emocionais. Os acontecimentos deixaram um rasto de destruição na vida e na consciência de todos aqueles que neles participaram. Neste dia seguinte à crucificação do Senhor sobrou-lhes o peso da má consciência da sentença e um certo medo do que fizeram. Mas isto um pouco em todos! Em Pedro que negou, em Judas que no seu desespero e arrependimento tentou remediar o irremediável entregando as moedas a quem lhas tinha dado, mas que não as aceitando, pelo contrário os sacerdotes insultam o dinheiro que eles mesmos lhe deram dizendo: “é dinheiro de sangue”, e Judas pensou que suicidar-se era a solução. Não ignorando que os outros discípulos também se diluem na neblina dos acontecimentos, e que em João refugiam-se numa sala fechada com medo dos judeus como se não fossem judeus… e daqui a pouco Tomé! Passadas 24 horas sentem-se aflitos com a possibilidade de que a Ressurreição anunciada se poderia realizar pelo rapto do cadáver às mãos dos discípulos, tendo a displicência sem paralelo nos Evangelhos de lhe chamarem “aquele enganador”, mas o epiteto indiretamente também é aplicado aos discípulos, suspeitos de poderem roubar de noite o corpo do Senhor e espalhar a mentira da Ressurreição. Ao pedido de uma guarda Pilatos aceita porque lhe é indiferente. Da outra vez diz: “levai-o e julgai-o vós”, desta vez: “guardai-o como entenderdes”. Mas por muito que nos custe, príncipes dos sacerdotes e escribas foram coerentes: disseram e pensaram mal dele em vida e na morte, suspeitaram dos discípulos enquanto Ele estava vivo e suspeitaram deles depois de Ele ter morrido, ao contrário da atualidade que quando alguém é criticado ou suspeito em vida, quando morre chegam logo os “vira-casacas” a mudar de opinião, dando a parecer que é necessário morrer para se ser bom… Por esse mundo fora emitem-se tantas opiniões desastradas, dizem-se tantas coisas sem pensar, tantos julgamentos temerários, que este é o dia que em silêncio devemos refletir sobre como agimos, porque agimos desta ou daquela forma, porque pensamos isto ou aquilo das pessoas que se cruzam connosco, e de como as nossas opiniões correm perigo e podem ser tão frágeis e conformadas com as circunstâncias. Hoje é dia para fazermos uma autocrítica, para mudarmos nós, em vez de esperar que sejam os outros a mudar. Se assim fizermos em nenhuma circunstância, nem a vida nem a morte nos deixa pesos irremediáveis na consciência, surgindo assim em nós uma boa mente, uma vida suave, tranquila, sem suspeitas de que nos possam estar a raptar a existência ou a enganar. Nunca seremos nem príncipes, nem escribas, nem Pilatos, nem guardadores de cemitérios, nem raptores, mas seremos parte daqueles que hoje estão na porta do sepulcro à espera do Amado.

José Manuel Cerqueira

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