19.º Domingo Comum – 9 de agosto de 2020

S. Mateus 14,22-33

O texto da reflexão deste domingo descreve a travessia no barco e a tempestade no lago. De vez em quando, há momentos na vida em que tudo parece dar o contrário.

O medo nos assalta. Nada dá certo. Boa vontade não falta, mas já não adianta. Parecemo-nos com um barco que vai afundando no mar.

Entre o Sermão das Parábolas (Mt 13) e o da Comunidade (Mt 18), está novamente uma longa parte narrativa (Mt 14 até 17). O Sermão das Parábolas chamava a atenção para a presença do Reino nas coisas da vida. A parte narrativa mostra como este Reino está presente nas contradições da vida, provocando reações a favor ou contra. Um dos episódios narrados é a travessia do lago. Depois de ter reunido o povo no deserto (Mt 14,13-14) e ter instituído a mesa comum, por meio da partilha que multiplicou o pão, Jesus sente a necessidade de ficar a sós com o Pai. Ele manda os discípulos fazerem a travessia para o outro lado do mar, despede a multidão e sobe a montanha para rezar.

Esta travessia do mar simboliza a travessia que as comunidades tinham de fazer no fim do século I:

– Sair do mundo fechado da antiga observância da Lei para o novo jeito de observar a Lei do amor, ensinada por Jesus;

– Sair da ideologia da pertença a um suposto único povo eleito, como se fosse privilegiado por Deus entre todos os povos, para a certeza de que em Cristo todos os povos se fundiam num único povo diante de Deus;

– Sair do isolamento da intolerância para o mundo aberto do acolhimento, do respeito e da gratuidade.

Travessia perigosa, mas necessária.

Diante da onda que avança sobre ele, Pedro afunda na água por falta de fé. Depois que Jesus o salvou, são os discípulos que confessam a fé em Jesus, filho de Deus. Mais tarde, Pedro terá a mesma fé em Jesus, filho de Deus (Mt 16,16). Assim, Mateus sugere que não é Pedro que carrega a fé dos discípulos, e sim é a fé dos discípulos que carrega a fé de Pedro.

Como os discípulos de Jesus, as comunidades estavam numa travessia difícil e perigosa, saindo do mundo fechado das observâncias e dos sacrifícios para o mundo aberto do amor e da misericórdia.

Também nós estamos numa travessia difícil para um novo tempo e uma nova maneira de ser Igreja, o que exige coragem e muita confiança.

Rafael Coelho, adaptado

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